Eclesiastes 11:1 – Lança o teu pão sobre as águas

1- Introdução

A maior parte da bíblia é de fácil entendimento. O simples conhecimento da língua vernácula[i] (nativa) é o bastante para que o leitor leigo compreenda facilmente o texto bíblico. Outras partes, no entanto, requerem a ajuda de um teólogo, pois é preciso entender o momento histórico, ou mesmo a figura de linguagem utilizada pelo autor, para então interpretar o texto. Mas de modo geral a bíblia não é nenhum mistério.

Um destes textos de difícil compreensão é o primeiro verso do capítulo 11 de Eclesiastes: “Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás.” (ARA)[ii] Como disse este é um verso de difícil compreensão; como sou um pequeno estudante da Bíblia não pretendo “resolver” o problema da interpretação deste verso, vou apenas reunir alguns argumentos de outros especialistas e lançar alguma luz sobre o tema.

2 – A interpretação do contexto

Antes de estudar qualquer versículo bíblico, é indispensável pelo menos ler o capítulo inteiro, pois, nenhum versículo está desconexo na bíblia, pelo contrário ele faz parte de um contexto que não deve ser ignorado.

Fazendo uma avaliação macro do livro, identificamos o autor avaliando a vida por vários aspectos e então buscando a satisfação pessoal em cada uma delas. Podemos até sugerir que o autor seja um predecessor dos filósofos existencialistas[iii], visto o pessimismo aparente dos capítulos iniciais do livro. O autor conclui que tal satisfação só pode ser encontrada na busca por Deus e por seu ensinamento, portanto a busca da felicidade sem a busca por Deus se torna vazio de significado, vaidade; tudo é vaidade[iv]. Compreendendo isto fica clara a conclusão do livro quando diz: “Agora que já se disse tudo, aqui está a conclusão: Teme a Deus e o obedece aos seus mandamento; porque este é o propósito do homem.” (12:13 – Almeida Sec. 21)[v].

O capítulo 11 de Eclesiastes, não diferente do restante do livro, também discute questões da vida e a relevância para nosso dia a dia. O capítulo em questão (11) trata, especialmente nos versos de 01 a 08, do excesso de cautela. Do mesmo modo, mais que qualquer outra seção esta se destaca pelo encorajamento continuo a ação. Estes conselhos não devem ser confundidos com um apelo à irresponsabilidade ou falta de planejamento, mas sim, na confiança em Deus (“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus.” Salmos 20:7 – ACF), visto que o futuro é sempre imprevisível. E seja qual for o momento da vida, é importante orar de agir e não se incomodar com a possibilidade do fracasso.

Qualquer pessoa precisa aceitar os riscos se quiser alcançar qualquer tipo de sucesso; o contexto destes versículos sugere que para alcançar qualquer resultado é preciso além do esforço e planejamento, assumir certos riscos. O novo comentário da Bíblia[vi] sustenta este ponto de vista e acrescenta que “O futuro é sempre imprevisível; acidentes sucederão mesmo nos mais bem controlados negócios…” J.S. Wrigth, reitor da Trinity College Bristol (Inglaterra) concorda que o futuro é incerto e acrescenta que como “o futuro é desconhecido, o homem deve cooperar sensatamente com as leis desconhecidas.”

O comentário Bíblico Vida Nova[vii] sustenta que tudo em 11.1-6 pode ser resumido na palavra fé. […] O contexto pode ser de generosidade […] E conclui que: Nem uma situação ameaçadora, nem um acontecimento inesperado devem impedir nosso entusiasmo pela vida.[viii]

Outra possiblidade é entender o contexto como um incentivo a pratica da bondade, sem buscar recompensa imediata, mas sabendo que um dia se receberá tal recompensa.

Agora que conhecemos o contexto, é hora de avaliar o texto. A partir de agora, avaliaremos por pontos de vista.

3 – Uma interpretação romanista

Um comentário contido na Bíblia Ave Maria, diz que o sentido deste versículo é obscuro e que talvez seja ditado popular hebraico sugira algo como nosso atual: “O que se planta, colhe.”

Concordo em dizer que o sentido é obscuro (ou de difícil entendimento), pois não sabemos exatamente o que é este ditado. Infelizmente as variações linguísticas mudam frequentemente o sentido das palavras ou mesmo de expressões ao longo dos anos, e por isto existe um grande esforço em determinar qual o significado deste “ditado”, no entanto, a comparação com o nosso ditado popular parece um tanto desconexo com o restante dos versículos deste capítulo. veja item 2.

O ditado “O que se planta, colhe” nos ensina que nossas atitudes possuem consequências, assim como o versículo: “O que faz uma cova cairá nela” (Pv 26: 27), não é de se estranhar que exista mais de um verso na bíblia que nos ensine sobre as consequências de nossos atos, mas neste contexto é pouco provável que o sentido seja este, visto que o contexto não faz referência à consequência dos nosso atos.

4 – Incentivo ao comércio marítimo

A Bíblia NTLH, traz no comentário deste versículo que o texto parece “tratar-se de um ditado que tem em vista negócios de comércio marítimo. O pão se refere ao resultado do trabalho da pessoa, isto é o seu dinheiro.” Esta teoria é possível, no entanto, é incoerente com o restante do capítulo e até mesmo com a história dos hebreus, pois eles não são entusiastas da vida marítima. Apesar de comercializarem deste modo, como em 1 Reis 10:22. Mas não encontro nos hábitos culturais hebreus, precedente o bastante para um conselho marítimo na bíblia.

Francis Nichol comenta da interpretação clássica, sobre a prática da caridade e bondade; e também fala sobre uma interpretação alternativa sobre “proceder com sabedoria em empresas comerciais de diversas”[ix]. Os comentaristas da NTLH reconhecem esta intepretação como sendo a mais aceitável, tanto que traduziram o versículo 1 e 2 do seguinte modo “Empregue o seu dinheiro em bons negócios e com o tempo você terá o seu lucro. Aplique-o em vários lugares e em negócios diferentes porque você não sabe que crise poderá acontecer no mundo.”

O comentarista bíblico Delitzsch, demonstra que a referência destas palavras é mesmo sobre o comércio marítimo de trigo, no entanto, Delitzsch sustenta que estas palavras são utilizadas para ilustrar que “o curso que a sabedoria sugere em outros campos da vida, tal como a prática da caridade não calculada.”

A interpretação sobre comércio marítimo é uma interpretação possível, mas um tanto desconexa com o restante do capítulo; logo não satisfaz o restante do capítulo que nos aconselha sobre ações do dia a dia e não é específica quanto ao algum tipo de negócio.

5 – Usar de generosidade

A bíblia NVI traz como comentário de rodapé que é aceitável a tradução “Dê generosamente o seu pão”. Os tradutores da NVI defendem, portanto, que este verso ensina sobre a caridade. Ponto de vista também sustentado por Delitzsch (ver tópico 4). Afirmam portanto que a caridade deve ser praticada largamente, sem restrições e sem intenção imediata de ganho, mas que um dia retomará para recompensar o doador.

Esta interpretação é bastante razoável e certamente corrobora com um contexto que fala das incertezas da vida. Assim como o versículo: “A quem dá liberalmente, ainda se lhe acrescenta mais e mais; ao que retém mais do que é justo, ser-lhe-á em pura perda.” (Pv. 11:24)

6 – Esperar a recompensa Divina

O Phd. Dr. Russel Sheed diz que o versículo em questão fala sobre a recompensa Divina às nossas ações. O Dr. Sheed conclui que “quando exercemos misericórdia, não devemos pensar em recuperar o nosso ‘pão’, como se fosse um rendimento à nossa boa obra. Deus a seu tempo recompensará, pois Ele é quem dá e reparte seu pão ao faminto.” De modo a corroborar com este ponto de vista, citamos os versículos de 2Samuel 2:6 “Agora, pois, o SENHOR use convosco de misericórdia e fidelidade; eu vos recompensarei este bem que fizestes.” e, Hebreus 10:35 “Não lanceis fora, portanto, a vossa confiança, a qual tem uma grande recompensa.”

A opnião do Dr. Sheed é bastante relevante, pois se o capítulo trata das incertezas da vida, nada mais coerente às pessoas que tem fé, esperar a recompensa Divina. Sabendo que a prática das boas obras serão recompensadas por aquele que está acima de todas as coisas. Sabendo que para Deus não há incertezas.

7 – Ponto de vista alegórico

Existem basicamente duas escolas de interpretação bíblica, a saber, literal e alegórica. Em poucas palavras, os alegoristas entendem que a bíblia é um livro figurativo e que deve ser revelado, ou seja, o real sentido dos textos bíblicos estão ocultos e que precisam da “revelação” para que as figuras que representam sejam apresentadas. Como exemplo de interpretação alegórica, cito Rebeca, que é uma figura da igreja. Enquanto o servo de Abraão é uma figura do Espírito Santo, que foi buscar a igreja (Rebeca) para se casar com Isaque, que por sua vez é uma figura de Jesus Cristo. (Gênesis capítulo 24).

A outra escola de interpretação é a literal[x], ou, como o próprio nome diz, a interpretação se limita ao próprio texto e faz a interpretação o mais direta possível, abrindo mão de figuras, metáforas, possíveis símbolos, etc. De modo que não é preciso nenhum tipo de “revelação” especial para compreender o texto bíblico, mas sim a leitura, compreensão histórica e cultural. Citando o mesmo exemplo do capítulo 24 de Gênesis, um literalista iria apenas entender que era costume dos Israelitas se casarem apenas entre eles. Os israelitas não se casavam com mulheres de outros povos (este casamento só acontecia em casos raros – veja em Juízes cap. 14:1-3 a insatisfação dos pais de Sansão quando ele quer se casar com uma filisteia), por isto Abraão (pai de Isaque) buscou uma esposa para seu filho entre as mulheres do seu povo.

Minha opção de interpretação bíblica é sempre a literal, somente quando esgotada a interpretação literal ou quando sugerido pelo próprio texto, é que procuro alegorias. No versículo que estamos estudando, eu sugiro uma interpretação alegórica, vejamos:

Frequentemente, a bíblia se refere ao Espírito Santo como sendo água, em Jeremias capítulo 2 verso 13 o próprio Deus se define como sendo a fonte de “águas vivas”. Talvez esta figura tenha sido exaustivamente utilizada na bíblia porque o povo de Israel morava em um lugar com considerável escassez de água, então, o povo entendia muito bem o refrigério que a presença de Deus traz, assim como a água potável satisfaz a sede. Neste ínterim, o pão simbolizava o alimento, ou mesmo o resultado do trabalho, pois o trigo era plantado, colhido, e preparado; para só depois se tornar farinha e da farinha fazer o pão. No deserto o povo de Israel foi satisfeito com pão caído do céu em plena demonstração do cuidado de Deus para com o povo.

Na oração modelo [xi] Jesus ensina: “O pão nosso de cada dia nos da hoje” (Mateus 06:11). Até hoje associamos “pão” com trabalho e\ou salário, lembra-se das expressões “ganhar o pão” ou “defender o pão.”

Em um contexto que nos exorta a confiar em Deus, aceitar e enfrentar os riscos do dia-a-dia, não consigo pensar em outra interpretação que não seja o de Deus ensinando a confiar o pão (nosso trabalho, nossas garantias) Nele, confiar que Ele nos trará de volta o pão. Talvez fosse sensato o rei Salomão ensinar a guardar o pão em um depósito seguro, livre de mofo e insetos, mas ele diz: “Lança o seu pão sobre as águas”. Lançar o nosso pão naquilo que não podemos controlar, naquilo que não está nos moldes da sociedade, nem das regras de administração, ou mesmo da convenção popular e nem mesmo é uma forma convencional de guardar o pão. Isto é uma prova de profunda fé no Deus provedor.

O versículo termina com a certeza de que o encontraremos. Se guardo meu pão em um depósito, por mais seguro que seja, ele é minha responsabilidade. Se guardo o meu pão nas águas de Deus, é de responsabilidade de Deus que preserve e me devolva no tempo certo este pão.

“Observai os lírios; eles não fiam, nem tecem. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais tratando-se de vós, homens de pequena fé!” (Lucas 12:27-28 ARA)

Conclusão

Os pontos de vista em torno deste versículo são muitos. Em todos os tópicos procurei reunir os principais argumentos em torno da interpretação deste versículo. Não foi minha intenção resolver o problema desta interpretação, mas sim, avaliar qual parece ser a interpretação que melhor se harmoniza com o contexto do livro e possui relevância aos nossos dias. Acredito ter lançado luz sobre o tema e despertado a curiosidade de todos quanto às possibilidades da interpretação bíblica.

Referências bibliográficas

DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Tradução BENTES, João. 3ª Edição Revisada. São Paulo. Editora Vida Nova, 2006

CARSON, D. A. et al – Comentário Bíblico Vida Nova. Tradução LOPES, Carlos E. S. Editora: Vida Nova 2009

Bíblia de Estudos NTLH. Barueri, SP. Editora: Sociedade Bíblica do Brasil, 2005

KASCHEL, Werner; ZIMMER, Rudi. Dicionário da Bíblia de Almeida. 2ª Edição. Editora: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999

Bíblia Ave Maria. Edição Pastoral-Catequética 29 ª Edição. Editora Ave Maria, 2001

NICHOL, Francis. Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia; Casa Publicadora Brasileira

DAVIDSON, F. O novo Comentário da Bíblia. Editado por Dr. Russell P. Shedd. Editora: Vida Nova, 2006

SHEED, Russel P. Bíblia Sheed. Editora: Nova Vida, 2007


[i] Língua vernácula: Vernáculo (a) – Dicionário Priberam: 1. Próprio do país a que pertence. 4. Língua própria de um país.
[ii] ARA: Almeida Revista e Atualizada. Tradução da Bíblia para o Português por João Ferreira de Almeida. Direitos de tradução reservados à Sociedade Bíblica do Brasil
[iii] Existencialismo: O existencialismo é o nome dado à corrente filosófica iniciada no séc. XIX pelo filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855). Como o próprio nome diz, o conjunto de doutrinas existencialistas tem foco na existência, isto é, na condição de existência humana.
[iv] Eclesiastes 1:2-3 (ACF) “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?
[v] Bíblia Sagrada Almeida do Século 21. 20 Edição –São Paulo: Editora Vida Nova
[vi] Título do original: The New Bible Commentary — 1953, 1954 de Inter-Varsity Press (Londres, Inglaterra)
[vii] D.A. Carson – The New Biblie Comentary –São Paulo. Ed. Vida Nova 2009
[viii] Novo Comentário da Bíblia, O; Michael A. Eaton; P. 933
[ix] Comentário Bíblico adventista. Comentário do versículo 1 de Eclesiastes capítulo 11
[x] Literal: também conhecido como método “Gramático Histórico”                                        [xii] Oração modelo ou “Oração do Pai Nosso” como é popularmente conhecida.


Por: Ricardo Moreira Braz do Nascimento

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