Teorias sobre a origem da Alma humana

1. Introdução

A Bíblia afirma que o homem foi criado por Deus, e que Deus soprou o fôlego de vida e o homem passou a ser alma vivente[1]. Se cremos no relato bíblico, não há duvidas sobre a origem da alma humana, mas quando se trata da afinidade da alma com a raça, as dúvidas começam a surgir. Muitos afirmam que somos filhos do nossos pais somente quanto ao corpo, enquanto outros defendem que somos filhos dos nossos pais em todos os aspectos da nossa natureza (emoções, traços de personalidade, etc) enquanto outros afirmam que as almas já existiam antes que tivessem um corpo. O objetivo deste artigo, não é só responder definitivamente as estas perguntas, mas sim melhorar a compreensão sobre o assunto.

Os recentes debates em torno do uso de embriões e células tronco na pesquisa científica trouxe ao cenário contemporâneo uma questão metafísica. O embrião é apenas “algo” ou é “alguém”? Atrás deste pequeno “algo”, que é o embrião, esconde-se “alguém”? Nas igrejas cristãs, seus líderes, mestres, professores de teologia, Escola bíblica dominical, entre outros, perguntam: “O embrião tem alma?” Talvez alguém mais direto tenha perguntado: o embrião é “algo” ou “alguém”?

Quando o bebe nasce, não temos dúvidas de que ele tem alma, mas em que momento a alma começa a existir? Para debater sobre esta questão vamos conhecer as três principais as opiniões que circularam na história do pensamento cristão:

  • Pré-existência: afirma que as almas preexistem ao seu nascimento.
  • Criacionismo: afirma que cada alma é criada diretamente por Deus, em algum tempo antes do nascimento da criança.
  • Traducianismo: afirma que o homem transmite aos filhos todo o seu ser, corpo e alma, reproduzindo-se, conforme todos os animais, segundo a sua espécie.

Santo Agostinho[2] também procurou resposta a esta questão, ele esteve certo de que a alma não pode emanar de Deus no sentido do panteísmo neoplatônico, pois então seria de algum modo parte de Deus. Antes de habitar no corpo, a alma deve ser criada; neste ponto surgem várias dificuldades:

  1. ou as almas provêm da alma de Adão (generacionismo); ou,
  2. cada alma é criada diretamente e individualidade (criacionismo); ou,
    existem em Deus e são infundidas no corpo, ou se unem voluntariamente ao corpo (preexistência).
  3. O criacionismo oferece dificuldades à teologia de Agostinho, porque neste caso não poderíamos explicar a herança do pecado original em cada ser; se, a herança que recebemos é meramente corporal, então a alma não pode receber as consequências do pecado original. O generacionismo seria melhor adequado a essa transmissão, mas corre o perigo de cair no materialismo. Mesmo mais tarde ainda Agostinho confessa que não encontra nenhuma clareza nessa explicação. Este debate já existiam em Platão, para quem a alma, de um lado, deve ser algo do corpo, i. é, o princípio da sua vida sensível; mas, de outro, deve ser completamente distinta dele[3]. Elas emergem de novo em Aristóteles e no Peripato[4] e se fortalecem com a mais acentuada afirmação da substancialidade da alma, no pensamento cristão.

Agostinho afirma-se incapaz de solucionar a questão da origem da alma e, embora tão influenciado por Platão[5], não acha a matéria por si mesma condenável, assim como não encara como castigo a união da alma com o corpo. Não seria este, como se disse tanto, a prisão da alma: o que faz do homem prisioneiro da matéria é o pecado, do qual deve libertar-se pela vida moral, pelas virtudes cristãs.

Para o cristão, o pecado leva o corpo a dominar a alma; portanto para o cristianismo, é o contrário, é a dominação do corpo pela alma, quando é orientada para Deus, conforme Agostinho, sustentada pela graça. Muitos antropólogos bíblicos têm debatido sobre a origem do espírito e a alma dentro do homem, como já foi dito sabe-se que em Adão Deus soprou sobre suas narinas, mas a partir de Adão como tem acontecido para que o espírito e a alma pudessem estar nele?

Se a alma é a personalidade do homem, como ela nasce dentro do corpo humano? O corpo sim é gerado através de uma relação sexual, mas e a parte espiritual do homem, e sua alma, como acontecem sua aparição dentro do corpo humano? E o caso de Eva, o corpo foi feito de uma costela de Adão, mas a alma e o espírito? Deus não soprou em suas narinas também?

A resposta para tais perguntas tem surgido muitos debates, e há muitos pensamentos sobre o assunto, vamos então conhecer os principais deles.

 

2. Teoria do Preexistencialismo

De acordo com esta teoria as almas já tiveram uma existência separada, consciente e pessoal, em um estado prévio; que havendo pecado nesse estado preexistente, elas são condenadas a nascer nesse mundo em um estado de pecado e em conexão com um corpo material em algum ponto do começo do seu desenvolvimento.

Muitos acham que os discípulos de Cristo foram influenciados por essa ideia quando disseram a respeito do homem que havia nascido cego: “Mestre quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”[6]. Apesar desta visão preexistencialista ser defendida por alguns filósofos tais como Platão, Sócrates e grandes nomes do cristianismo tais como Orígenes (185-254) e Scotus Erígena (810-877), nunca foi incorporada pela fé cristã. Observemos algumas dessas posições:

2.1 Platão de Atenas (428/27 a.C. – 347 a.C.):

Filósofo grego, discípulo de Sócrates, fundador da Academia e mestre de Aristóteles. Acredita-se que seu nome verdadeiro tenha sido Aristócles. Platão era um apelido que, provavelmente, fazia referência à sua característica física, tal como o porte atlético ou os ombros largos, ou ainda a sua ampla capacidade intelectual de tratar de diferentes temas, portanto plátos, em grego significa amplitude, dimensão, largura. Sua filosofia é de grande importância e influência.

Para Platão o homem era dividido em corpo e alma. O corpo era a matéria e a alma era o imaterial (não material), o divino que o homem possuía. Ao passo que o corpo sempre está em constante mudança de aparência e forma, a alma não muda nunca. A partir do momento em que nascemos temos a alma perfeita, porém não sabemos. As verdades essenciais estão escritas na alma eternamente, porém ao nascermos esquecemos, pois a alma é aprisionada no corpo.

A alma é divida em 3 partes:

raciona: região da cabeça; esta tem que controlar as outras duas partes;
tórax: irascível; parte dos sentimentos;
abdômen: concupiscível; desejo, mesmo carnal (sexual), ligado ao libido.
Platão acreditava que a alma depois da morte reencarnava em outro corpo, mas a alma que se ocupava com a filosofia e com o bem (boas obras), esta era privilegiada com a morte do corpo. A ela era concedida o privilégio de passar o resto de seus tempos em companhia dos deuses. O conhecimento da alma é que dá sentido à vida. Tudo foi criado pelo Demiurgo (seu criador), um divino artesão que criou o mundo real e sua aparência.

A antropologia filosófica de Platão sugere que o verdadeiro homem é um ser imortal, cujo nome próprio é a alma, que entra na comunhão dos deuses. O homem é uma união do corpo e da alma, sendo o corpo considerado apenas um veículo da alma. A alma é propriamente o homem, sendo o corpo uma sombra. Mas esta união é infeliz, pois o corpo serve como uma prisão para a alma, e ela só atingirá a verdade do que busca quando se desprender do corpo. Platão repete a expressão de Pitágoras que considerava o corpo como o túmulo da alma.

Segundo o pensamento de Platão, a origem da alma está no Demiurgo (Deus criador do Universo), todas as almas humanas são feitas pelo próprio Demiurgo, o qual criou todas individualmente, as entregou para o seu destino sequencial, aos “deuses criados”, à terra e aos planetas, para introduzirem a alma na existência, revesti-la de um corpo, nutrir o homem e deixá-lo crescer para depois recebê-lo de novo quando deixar esta vida. Para Platão a alma é uma substância invisível, imaterial, espiritual. Só quando é entregue ao instrumento do tempo é que ela se une ao corpo, e só então nascem as percepções.

2.2 Orígenes – (185 — 254 d.C.)

Teólogo e escritor cristão de grande erudição. Nasceu em Alexandria, Egito, Estudou na escola neoplatônica de “Ammonios”,  organizou em Alexandria uma escola superior de Exegese Bíblica. Foi considerado o membro mais eminente da escola de Alexandria e estudioso dos filósofos gregos.

Foi, segundo J. Quasten, o maior erudito da Igreja antiga, nasceu de uma família cristã egípcia e teve como mestre Clemente de Alexandria. Assumiu, em 203, a direção da escola catequética em Alexandria que havia sido fundada por um estóico chamado Panteno, que se havia convertido à mensagem de Cristo; atraindo muitos jovens estudantes pelo seu carisma, conhecimento e virtudes pessoais. Depois de ter também frequentado, desde 205, a escola de Amônio Sacas (fundador do neo-platonismo e mestre de Plotino).

Orígenes dedicava-se ao estudo e à discussão da filosofia, em especial Platão e os filósofos estóicos. No seu pensamento, podemos referir a tese da pré-existência da alma e a doutrina da “apocatastase”, ou seja, da restauração universal (palingenesia), ambas posteriormente condenadas no Segundo Concílio de Constantinopla, realizado em 553, por serem formalmente contrárias ao núcleo irredutível do ensinamento bíblico. Orígenes sustentava que Deus, conforme sua infinita justiça criou iguais todas as almas. A atual disparidade de condições dos seres humanos se deve ao diverso comportamento numa existência anterior.

 Ao contrário do que afirmam certos teosofistas, Orígenes era totalmente contrário à doutrina da metempsicose[7]. Profundo conhecedor deste conceito a partir da filosofia grega, afirma que a metempsicose “é totalmente alheia à Igreja de Deus, não ensinada pelos Apóstolos e não sustentada pela Escritura”[8].

Scotus Erígena também sustenta que o pecado deu entrada no mundo da humanidade no estado pré-temporal, e que, portanto o homem começa a sua carreira na terra como pecador. E Júlio Müller recorre à teoria, com o fim de conciliar as doutrinas da universalidade do pecado e da culpa individual. Segundo ele, cada pessoa necessariamente deve ter cometido pecado voluntário naquela existência anterior.

2.3 Objeções ao Preexistencialismo

a) É absolutamente vazia de bases bíblicas e filosóficas e, pelo menos nalgumas de suas formas, baseia-se no dualismo de matéria e espírito como ensinado na filosofia pagã, fazendo da ligação da alma com o corpo uma punição para a alma. Este teoria possui mais débito com Platão e Aristóteles, do que com os apóstolos Pedro e Paulo.

b) Faz realmente do corpo uma coisa acidental. A alma estava inicialmente sem o corpo, recebendo-o posteriormente. O homem era composto sem o corpo. Isto elimina virtualmente a distinção entre o homem e os anjos.

c) Destrói a unidade da raça humana, pois presume que todas as almas individuais existiam muito antes de entrarem na vida presente. Elas constituem uma raça. Doutrina mais uma vez não defendida ou sugerida pelas escrituras, por exemplo, em Eva, a bíblia não diz que ela já existia e então foi criado um corpo para sua alma a partir da costela de Adão.

d) Não acha suporte na consciência de uma tal existência anterior; tampouco sente que o corpo é uma prisão ou um lugar de punição para a alma. De fato; ela teme a separação de corpo e alma como uma coisa antinatural. Caso a alma fosse prisioneira do corpo, o momento da separação seria aguardado com alegria.

e) A Bíblia jamais atribui nossa presente condição a alguma causa anterior ao pecado de nosso primeiro pai, Adão (Rm 5.12-21; 1Co 15.22).

f) Tal ideia tende a nos fazer encarar a vida presente como transicional ou pouco importante, e nos faz pensar que a vida no corpo é menos desejável, e a criação de filhos, menos importante.

 

3. Teoria do Criacionismo

De acordo com frente de pensamento, a alma e o espírito são criados por Deus e agregados ao corpo do minúsculo ser, no momento do ato gerativo, ou ao longo do desenvolvimento fetal ou, ainda, no dia do nascimento.

O criacionismo não deve confundir-se com a teoria preexistencialista, a qual preconiza que as almas e os espíritos foram criados antes da geração humana, e ficaram à espera de corpos que lhes fossem preparados para sua agregação. O criacionismo, ao contrário, ensina que Deus cria um espírito para cada corpo, no momento da geração. Entre os adeptos da teoria do criacionismo estão Ambrósio, Jerônimo, Pelágio, Anselmo, Tomás de Aquino e a maioria dos católicos romanos e luteranos.

3.1 Pontos Favoráveis ao Criacionismo

a) O relato original da criação indica marcante distinção entre a criação do corpo e da alma. Aquele é tomado da terra, ao passo que esta vem diretamente de Deus. Esta distinção se mantém através de toda a Bíblia, onde o corpo e a alma não somente são apresentados como substâncias diferentes, mas também como tendo origens diferentes (Ec 12.7; Is 42.5).

b) É claramente mais coerente com a natureza da alma humana. A natureza imaterial e espiritual, e portanto indivisível, da alma do homem, geralmente admitida por todos os cristãos, é expressamente reconhecida pelo criacionismo.

c) Evita perigos latentes na área da cristologia, e faz maior justiça à descrição escriturística da pessoa de Cristo. Ele foi verdadeiro homem, possuindo verdadeira natureza humana, corpo real e alma racional, nasceu de mulher, fez-se semelhante a nós em todos os pontos e, todavia, sem pecado. Diversamente de todos os outros homens, Ele não participou da culpa e corrupção da transgressão de Adão. Isso foi possível porque Ele não compartilhou a mesma essência numérica que pecou Adão.

d) O Salmo 127.3 diz: “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão”. Isso indica que não só a alma, mas também toda a pessoa da criança, incluindo seu corpo, é dádiva de Deus.

e) Não é possível conceber que a mãe e o pai sejam somente eles responsáveis por todos os aspectos da existência do filho. Disse o salmista: Salmo 139.13 “Tu me teceste no seio de minha mãe”.

f) Isaías 42.1 O profeta afirma que Deus dá fôlego às pessoas da terra e “espírito aos que andam nela”.

3.2 Objeções ao Criacionismo

a) O criacionismo não pode explicar o fatos dos filhos se parecerem com os pais nos aspectos intelectuais e espirituais tanto quanto nos físicos.

b) As referências que falam de Deus como Criador da alma dão a entender criação imediata. Deus é, com igual clareza, mostrado como o Criador do corpo (por ex. Sl 139.13,14; Jr 1.5), e nem por isso interpretamos isto como se significasse criação imediata, mas sim mediata.

c) Não explica a tendência que todos os homens têm de pecar. Ou Deus deve ter criado cada alma em uma condição de pecaminosidade, ou o simples contato da alma com o corpo deve tê-la corrompido. No primeiro caso, Deus é o autor do pecado, e no segundo, o indireto.

Apesar de encontrarmos algumas passagens bíblicas que aparentemente estabelecem uma constante para fundamentação desta teoria, consideramos que ainda está incompleta, pois, por exemplo, esta a teoria faz de Deus o criador direto do pecado, visto que diariamente almas corrompidas pelo pecado são criadas por Deus.

 

4. Teoria Traducionista

O termo “traduciano” provém do verbo latino traducere (“levar ou trazer por cima”, “transportar”, “transferir”). Sustenta que a raça humana foi criada imediatamente em Adão, no que diz respeito à alma como também ao corpo, e que ambos são propagados da parte dele para a geração natural. Em outras palavras, Deus outorgou a Adão e Eva os meios pelos quais eles (e todos os seres humanos) teriam descendentes à sua própria imagem, perfazendo, assim, a totalidade da pessoa material e imaterial.

Este pensamento parece ser bem amparado nas Escrituras, vejamos algumas passagens bíblicas:

Gn 1.28 e 1.22; Gn 2.2 que fala do término da obra criativa de Deus;
Gn 2.7 nos fala da origem da alma de Adão, enquanto que os versos 21-23 mencionam a origem da alma de Eva;
outros textos são: Gn 46.26; Sl 52.5; Rm 1.3; 1Co 11.8; Hb 7.9,10.

O Traducionismo se baseia ainda na hereditariedade do pecado de Adão e na hereditariedade de traços mentais, físicos e morais que os filhos têm dos pais. Na igreja Primitiva Tertuliano, Rufino, Apolinário e Gregório de Nissa eram traducionistas. Desde os dias de Lutero o traducionismo tem sido o conceito geralmente aceito pela Igreja Luterana. Entre os reformados calvinistas, tem apoio de H. B. Smith e Shedd. A. H. Strong também tem preferência por ele.

4.1 Pontos a Favoráveis do Traducionismo

a) Pela descrição bíblica segundo a qual Deus uma única vez soprou nas narinas do homem o fôlego de vida, e depois deixou que o homem reproduzisse a espécie (Gn 1.28; 2:7).

b) A criação da alma de Eva estava incluída na de Adão, desde que se diz que ela foi feita “do homem” (1Co 11.8), e nada se diz acerca da criação da sua alma (Gn 2.23).

c) Deus cessou a obra de criação depois de haver feito o homem (Gn 2.2).

d) As Escrituras afirmam que os descendentes estão nos ombos dos seus pais (Gn 46.56; Hb 7.9,10).

e) Tem o apoio da analogia da vida vegetal e animal, em que o aumento numérico é assegurado, não por um número continuamente crescente de criações imediatas, diretas, mas pela derivação natural de novos indivíduos de um tronco paterno (Sl 104.30).

f)  A teria procura também apoio na herança de peculiaridades mentais e tipos familiais, tantas vezes tão notórios e notáveis como semelhanças físicas, que não podem ser explicados pela educação ou pelo exemplo, desde que se evidenciam mesmo quando seus pais não vivem para criar seus filhos.

g) Oferece maior base para explicação da herança da depravação moral e espiritual, que é assunto da alma, e não do corpo. É muito comum combinar o traducionismo com a teoria realista para explicar o pecado original.

h) Quanto a controvérsia de que Cristo pode ter tomado a natureza pecaminosa de Maria. A resposta é que Sua natureza foi perfeitamente santificada em, e, por Sua concepção pelo Espírito Santo. Em outras palavras a natureza humana que Jesus tomou de Maria foi santificada antes d’Ele tê-la tomado para Si (Lc 1.35; Jo 14.30; Rm 8.3; 2Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1Pe 1.19; 2.22).

4.2 Objeções ao Traducionismo

a) Parte do pressuposto de que, depois da criação original, Deus só age mediatamente. Depois dos seis dias da criação a Sua obra criadora cessou. A contínua criação de almas, diz Delitzsch, é incoerente com a relação de Deus com o mundo. Pode-se porém levantar a questão: Que será, então da doutrina da regeneração, que não é efetuada por causas secundárias.

b) Geralmente se alia à teoria do realismo, uma vez que é o único modo pelo qual pode explicar a culpa original. Fazendo isso, afirma a unidade numérica da substância de todas as almas humanas, posição insustentável e também deixa de dar uma resposta satisfatória à questão, por que os homens são responsabilizados somente pelo primeiro pecado de Adão, e não pelos seus pecados subsequentes, nem pelos pecados dos seus outros antepassados.

c) É contrária à doutrina filosófica da simplicidade da alma. A alma é uma substância puramente espiritual que não admite divisão. A reprodução da alma pareceria implicar que a alma do filho se separa de algum modo da alma dos pais. Além disso, levanta-se a questão se ela origina da alma do pai ou da mãe. Ou provém de ambos? Sendo assim, não é um composto?

d) A ideia de que Levi estava já no corpo de Abraão (Hb 7.10) deve ser entendida num sentido representativo ou figurado, não literal. Além disso, não se fala nesse caso somente da alma de Levi, mas da pessoa integral, incluindo seu corpo e sua alma, embora seu corpo não estivesse fisicamente presente de modo concreto no corpo de Abraão, pois não haveria naquela época uma combinação distinta de genes que se pudesse atribuir a Levi e a ninguém mais.

 

5. Conclusão

A Bíblia ensina que o homem veio à existência por um ato criativo de Deus, e nesse ato criativo, conforme o relato bíblico, encontramos certas particularidades que fazem com que o homem se diferencie dos outros seres viventes. Em Gênesis 2.7 está escrito: “Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”, fica evidente que o ser humano é constituído de dois elementos: material e imaterial.

Na união destes dois elementos o homem passa a ser alma vivente. Essa união deu origem a três grandes teorias que buscam explicar a origem da alma e se tem ou não afinidade com a raça. A teoria preexistencialista é extremamente especulativa e não tem fatos bíblicos que à apoiem. Enquanto as teorias criacionista e traducionista têm algum respaldo bíblico.

De acordo com os pontos favoráveis e as objeções apresentadas, a teoria traducionista merece preferência porque ela melhor se harmoniza com a Escritura, com a teologia e com uma concepção apropriada da natureza humana. Ao mesmo tempo, conforma-se com o ensino geral das Escrituras, que dizem ter sido a humanidade criada por Deus em Adão. Sendo assim, o homem foi criado um todo, homogêneo. Com isto o Criador não tem responsabilidade (direta ou indireta), pelo atual estado moral e espiritual da humanidade.

Ainda falando sobre traducionismo. o ato criador do corpo e do espírito é atribuído a Deus, indistintamente, sem qualquer diferença. O homem, porém, dotado de protoplasma genético, é o meio instrumental, usado por Deus, para consecução dos seus planos criativos. Sendo assim, Deus cria e o homem, em cumprimento da lei divina da genética, gera filhos e filhas na sua composição biológica integral. Segundo a Bíblia, Deus é o Criador da relva, das ervas e das árvores (Gn 1.11), embora criasse primeiro a terra e a mandasse, depois, produzir erva. Assim também Deus é o Criador de cada indivíduo por intermédio dos pais.

Portanto, a teoria traducianista, parece ser a mais coerente em todos os pontos de vista e de igual modo corrobora com o relato das Escrituras Sagradas.


Referências Bibliográficas

DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia. Editora Nova Vida, 1997

CHEUNG, Vicent. Teologia Sistemática 2003 – Reformation Ministries International – PO Box 15662, Boston, MA 02215, USA – Versão em português publicada online no site monergismo.com

STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. Editora Hagnos – 2003

DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Tradução BENTES, João. 3ª Edição Revisada. São Paulo. Editora Vida Nova, 2006

HAMMAN, Adalbert-G. Para ler os Padres da Igreja. Tradução: LEMOS, Benôni. Editora: Paulus, 1995. p. 146-155

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Campinas: LPC, 1998.

RYRIE, Charles C. Teologia Básica – Ao alcance de todos. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.


[1] Gênesis 2:7
[2] Aurelius Augustinus 354 d.C. – 430 d.C. – Principal expoente da Filosofia Cristã, nasceu em Tagaste (África) e foi bispo em Hipona.
[3] Hist. Fil. Antiguidade, pág. 107
[4] c., págs. 189, 259
[5] Platão viveu no Séc. IV a.C.
[6] João 9.2
[7] Metempsicose: também conhecido como transmigração; que é a teoria do renascimento do ser humano em animais
[8] Comentário ao Evangelho de Mateus XIII, 1, 46–53

Por: Ricardo Moreira Braz do Nascimento

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