Conversão, um ensaio sobre os diferentes conceitos de conversão.

Conceito

A doutrina da conversão, naturalmente, como toda as outras doutrinas cristã, baseia-se nas Escrituras Sagradas, sobre esta base deve ser aceita. Desde que a conversão é uma experiência consciente ocorrida na vida de muitos, o testemunho da experiência pode ser acrescentado ao da Palavra de Deus, mas esse testemunho, por mais valioso que seja, nada acrescenta à segura veracidade da doutrina ensinada na Palavra de Deus.

A psicologia da religião nos trouxe boas contribuições ao fenômeno da conversão, mas sempre se deve ter em mente que, embora tenha trazido à nossa atenção alguns fatos interessantes, pouco ou nada fez para explicar a conversão como um fenômeno religioso. A doutrina bíblica da conversão baseia-se, não somente nas passagens que contêm um ou mais dos termos que expressam conversão, arrependimento, mudança de comportamento, etc, mas também em muitas outras nas quais o fenômeno da conversão é descrito ou apresentado concretamente com exemplos vivos. Nem sempre a Bíblia fala de conversão no mesmo sentido.

Podemos distinguir os seguintes sentidos:

Conversões nacionais

Nos dias de Moisés, de Josué e dos juízes, repetidamente o povo de Israel dava as costas ao Senhor e, depois de experimentar o desprazer de Deus, arrependia-se dos seus pecados e retornava ao Senhor. Com o profeta Jonas houve conversão, os ninivitas se arrependeram dos seus pecados e foram poupados pelo Senhor[1]. Estas conversões eram simplesmente da natureza de reformas morais. Podem ter sido acompanhadas de algumas conversões religiosas reais de indivíduos, mas ficavam muito aquém da verdadeira conversão de todos os que pertenciam à nação. Em regra, eram muito superficiais. Apareciam sob a liderança de governantes piedosos, mas quando eram substituídos por homens ímpios, o povo logo retornava aos velhos hábitos.

Conversões temporárias

A Bíblia se refere também a conversões de indivíduos que não representam nenhuma mudança do coração e, portanto, só têm significação passageira. Na parábola do Semeador Jesus fala dos que ouvem a palavra e logo a recebem com alegria, mas não têm raízes em si mesmos, portanto duram pouco. “Quando lhes sobrevêm as tribulações, provações e perseguições, depressa se ofendem e caem[2]”.

Paulo faz menção de Hiemeneu e Alexandre, que “vieram a naufragar na fé”[3]. E em 2 Timóteo 4:10 ele se refere a Demas que o abandonara porque o amor ao presente século o dominara. E o livro de Hebreus nos fala de alguns que caíram, sendo que eles “uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro”[4].

Finalmente, a respeito de alguns que tinham voltado as costas aos fiéis, diz João: “Eles saíram do nosso meio, entretanto não eram dos nossos; porque, se tivessem sido nossos, teriam permanecido conosco”[5]. Tais conversões temporárias podem, por algum tempo, ter a aparência de conversões verdadeiras.

Conversão verdadeira (conversio actualis prima)

A verdadeira conversão nasce da tristeza segundo Deus, e resulta numa vida de devoção a Deus[6]. É uma mudança que tem suas raízes na obra de regeneração, e que é efetuada na vida consciente do pecador pelo Espírito de Deus; mudança de pensamentos e opiniões, de desejos e volições, que envolve a convicção de que a direção anterior da vida era insensata e errônea, e altera todo o curso da vida.

Há dois lados nesta conversão, um ativo e o outro passivo; o primeiro sendo o ato de Deus pelo qual Ele muda o curso consciente da vida do homem, e o último, o resultado desta ação como se vê na mudança que o homem faz no curso da sua vida e em seu voltar-se para Deus. Consequentemente, pode-se dar uma dupla definição de conversão:

A conversão ativa: É o ato de Deus pelo qual, Ele mesmo, faz com que o pecador regenerado, em sua vida consciente, se volte para Ele com arrependimento e fé.
A conversão passiva: Consiste no ato consciente do pecador pelo qual, pela graça de Deus, se volta para Deus com arrependimento e fé.
Esta conversão é que nos interessa primordialmente na teologia. A Palavra de Deus contém vários exemplares notáveis dela, como, por exemplo, as conversões de:

  1. Naamã – 2 Reis 5:15
  2. Manasses – 2 Crônicas 33:12-13
  3. Zaqueu – Lucas 19:8-9
  4. Cego de nascença – João 9:38
  5. Mulher samaritana – João 4:29
  6. Eunuco – Atos 8:30
  7. Cornélio – Atos 10:44
  8. Paulo – Atos 9:5
  9. Lídia – Atos 16:14; e muitos outros

A conversão repetida

A Bíblia fala também de uma conversão repetida, na qual a pessoa convertida, depois de uma queda nos caminhos do pecado, retorna a Deus. Strong prefere não usar a palavra “conversão” para esta mudança, empregando antes palavras e frases como “rompimento, abandono, volta, negligências e transgressões” e “retorno a Cristo, confiança novamente depositada nele”. Mas a própria Escritura usa a palavra “conversão” para esses casos, como em Lucas 22:32; Apocalipse 2:5, 16, 21, 22; 3.3, 19.

Deve-se entender, que a conversão, no sentido estritamente soteriológico, nunca se repete. Os que experimentaram a verdadeira conversão podem cair temporariamente sob os falsos encantos do mal e cair em pecado; até podem, às vezes, perambular longe do lar; mas a nova vida forçosamente se reafirmará e por fim os levará a voltar para Deus com corações quebrantados.

Características da Conversão

A conversão é simplesmente uma parte do processo salvífico de Deus. Mas, porque é parte de um processo orgânico, naturalmente está ligada de modo íntimo com cada uma das outras partes. Às vezes se vê a tendência, especialmente em nosso país, de identificá-la com alguma das outras partes do processo, ou de exaltá-la como se se tratasse da parte mais importante do processo.

É bem conhecido o fato de que alguns, ao falarem da sua redenção, nunca vão além da sua conversão, esquecendo-se de falar do seu crescimento espiritual ao longo dos anos. Isto sem dúvida se deve ao fato de que na experiência deles, a conversão sobressai como uma crise incisivamente marcante, crise que exigiu da parte deles. Tendo-se em conta a tendência atual de se perder a percepção das linhas de demarcação presentes no processo de salvação, é bom lembrar-nos da veracidade do adágio latino: “Qui bene distinguet, bene docet” (“Quem distingue bem, ensina bem”). Devemos notar as seguintes características da conversão:

  1. A conversão pertence aos atos recriadores de Deus, e não aos Seus atos judiciais. Ela não altera a posição, mas, sim, a condição do homem. Ao mesmo tempo, relaciona-se estreitamente com as operações divinas na esfera judicial. Na conversão, o homem toma consciência do fato de que ele merece a condenação, e também é levado ao reconhecimento desse fato. Conquanto isto já pressuponha fé, ela conduz também a maior manifestação da fé em Jesus Cristo, a uma segura confiança nele para a salvação. E esta fé, por sua vez, pela apropriação da justiça de Jesus Cristo, serve de instrumento para a justificação do pecador. Na conversão, o homem se desperta para a jubilosa segurança de que todos os seus pecados são perdoados com base nos méritos de Jesus Cristo.
  2. Como a palavra metanoia[7] claramente indica, a conversão tem lugar, não na vida subconsciente do pecador, mas em sua vida consciente. Isto não significa que ela não tem suas raízes na vida subconsciente. Sendo um efeito direto da regeneração, naturalmente inclui uma transição nas operações próprias da nova vida, do subconsciente para o consciente. Em vista disso, pode-se dizer que a conversão começa nas profundezas da personalidade, mas, como um ato completo, certamente está dentro das linhas abrangidas pela vida consciente. Isto põe em relevo a estrita conexão existente entre a regeneração e a conversão. A conversão que não esteja arraigada na regeneração, não é conversão verdadeira.
  3. A conversão assinala o início, não só do despojamento do velho homem, da fuga do pecado, mas também do revestimento do novo homem, da luta pela santidade no viver. Na regeneração, o princípio pecaminoso da velha vida já é substituído pelo princípio santo da nova vida. Mas é somente na conversão que esta transição penetra a vida consciente, levando-a numa nova direção, rumo a Deus. O pecador abandona conscientemente a vida antiga e pecaminosa e se volta para uma vida em comunhão com Deus e a Ele devotada. Não quer dizer, porém, que a luta entre a velha e a nova está acabada de uma vez; ela continuará enquanto durar a vida do homem.
  4. Tomando a palavra “conversão” em seu sentido mais específico, ela indica uma mudança instantânea, e não um processo como o da santificação. É uma mudança que se dá uma vez e não se pode repetir, embora, como acima exposto, a Bíblia também denomine conversão o retorno do cristão a Deus, depois de haver caído em pecado. Neste caso, é a volta do crente para Deus e para a santidade, depois de havê-los perdido de vista temporariamente. Quanto à regeneração, não temos a menor possibilidade de falar em repetição; mas na vida consciente do cristão há altos e baixos, períodos de íntima comunhão com Deus e períodos de afastamento dele.
  5. Contrariamente aos que pensam na conversão unicamente como uma crise definida na vida, deve-se notar que, conquanto a conversão possa ser uma crise agudamente marcante, pode ser também uma mudança muito gradativa. A teologia mais antiga sempre distinguia entre conversões súbitas e graduais (como nos casos de Jeremias, João Batista e Timóteo); e em nossos dias, a psicologia da religião acentua a mesma distinção. As conversões marcadas por crise são mais frequentes na épocas de declínio religioso, e nas vidas daqueles que não gozaram os privilégios de uma verdadeira educação religiosa, e que vagavam longe das veredas da verdade, da retidão e da santidade.
  6. Finalmente, em nossos dias, quando muitos psicólogos mostram uma inclinação para reduzir a conversão a um fenômeno geral e natural do período da adolescência, é necessário assinalar que, quando falamos em conversão, temos em mente uma obra sobrenatural de Deus, resultando numa mudança religiosa. Os psicólogos às vezes insinuam que a conversão é apenas um fenômeno natural, chamando a atenção para o fato de que mudanças repentinas ocorrem também na vida moral e intelectual do homem. Alguns deles sustentam que a emergência da ideia de sexo desempenha um papel importante na conversão. Contra esta tendência racionalista e naturalista, é preciso afirmar o caráter específico da conversão religiosa.

[1] Jonas 3:10
[2] Mateus 13: 20-21
[3] 1 Timóteo 1:19-20. também 2 Timóteo 2:17-18
[4] Hebreus: 6:4-6
[5] 1 João 2:19
[6] 2 Coríntios 7:10
[7] Metanoia: Palavra grega mais comum no Novo Testamento para indicar conversão. D primariamente uma mudança do entendimento, levando a uma mudança da vida. Não retrata uma conversão em apenas termos emocionais e sim algo mais profundo. Walden, no livro The Great Meaning of Metanoia, define como “uma mudança geral da mente que se torna, em se desenvolvimento mais completo, uma regeneração intelectual e moral.”


FonteBERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Campinas: LPC, 1998.

Adaptado por: Ricardo Moreira Braz do Nascimento

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