O Gnosticismo no Novo Testamento

O termo é derivado do grego gnosis, conhecimento, foi usado no passado para designar um corpo de ensino herético denunciado nos primeiros séculos da igreja cristã, mas hoje empregado às vezes de modo mais livre para se referir a qualquer crença religiosa que enfatize o dualismo maléria/espírito e/ou a posse de conhecimento secreto.

O problema com essa definição mais ampla é que a palavra deixa de ter qualquer referência específica e se torna o mínimo denominador com um do pensamento religioso helenista (de cultura grega). Contudo, mesmo os líderes da igreja primitiva discordavam entre si sobre os fatores comuns aos grupos que realmente se chamavam “ gnósticos”. Porém, é possível ter alguma ideia da crença gnóstica básica.

O gnosticismo assumia muitas formas, porém sua ideia fundamental parece que sempre foi a seguinte: a matéria é má, só o espírito é bom, porém pelo saber, de uma espécie só conhecida pelos iniciados, o espírito do homem pode libertar-se de sua prisão material e erguer-se para Deus. Onde tal sistema se associou ou se uniu ao Cristianismo, seguiram-se resultados sérios. Em primeiro lugar, negava a possibilidade de uma real encarnação, porque, sendo Deus bom, não Lhe era possível que viesse a entrar em contacto com a matéria má; e isto, por sua vez, afastava a possibilidade da expiação, porque o Filho de Deus não podia ter sofrido na cruz. Da mesma forma, se a salvação vinha pelo saber, podia-se sustentar que era de todo sem valor uma vida correta, e as piores formas de gnosticismo acobertavam, com a capa do saber, atos extremos de devassidão e libertinagem.

Crenças

A crença fundamental era que o mundo criado é mau e está totalmente separado do mundo do espírito e em oposição a ele; nesse mundo espiritual, o Deus supremo habita em esplendor inacessível, sem se relacionar com o mundo material. A matéria foi criada por um ser inferior, o demiurgo, que com seus ajudantes, os archons, mantém a humanidade aprisionada à existência física. Somente os que possuem uma fagulha ou alma divina podem escapar da existência material por ocasião da morte, se receberem também a iluminação do gnosis, o conhecimento.

Na maioria dos sistemas gnósticos essa iluminação é obra de um redentor divino, que desce: disfarçado do reino espiritual. Ele é com frequência identificado com o Jesus cristão. Dentro dessa estrutura mitológica, o gnóstico tentava descobrir sua própria identidade; reconhecendo o valor dessa ideia, o psicólogo analítico C. G. Jung baseou muitas de suas observações numa compreensão do antigo gnosticismo. O pensamento gnóstico é bem estranho ao cristianismo tradicional, pois sua estrutura mitológica da redenção deprecia os eventos históricos de Jesus e nega a importância da pessoa de Jesus e de sua obra para libertar os homens do pecado em vez de meramente guiá-los à auto-realização.

Fontes e origens

Nosso conhecimento das seita gnósticas vem em parte dos antigos pais da igreja, em especial Tertuliano, Clemente de Alexandria e Hipólito de Roma, que escreveram de modo extenso sobre o gnosticismo da perspectiva ortodoxa. Existem, porém textos gnósticos que proporcionam com preensão direta das crenças.

Ocorreu uma notável descoberta em 1945 em Chenoboskion, cidade antiga do Egito; 48 km ao n de Luxor. Os documentos encontrados são em geral chamados textos de Nag Hamraadi por terem sido apresentados primeiro em Nag Hammadi a cidade moderna mais próxima do sítio arqueológico. Faziam parte de uma biblioteca reunida por uma antiga seita cristã e foram abandonadas em 400 d.C. Não foram publicados até 1948, e ainda continuam os trabalhos para interpretá-los.

Entre os documentos gnósticos mais bem conhecidos estão os “evangelhos” de Tomé, Filipe e Maria, e o Evangelho da Verdade. Os textos levantam a questão se o gnosticismo era uma heresia cristã ou um sistema não-cristão com revestimento de ideias cristãs, e parecem indicar que havia formas não-cristãs, embora não haja provas de que essas formas existissem na era pré-cristã. Se o gnosticismo não era apenas uma perversão de ideias cristãs, não existe consenso quanto às suas origens. O gnosticismo também tem ligações com o Antigo Testamento e com filósofos gregos, e ainda com a religião iraniana (zoroastrismo).

Pertinência para o Novo Testamento

Alguns estudiosos (Bultmann entre eles) têm insinuado que o gnosticismo é mais antigo que o cristianismo e o NT é uma forma dele. Porém, existem diferenças fundamentais em perspectiva. Quanto a história da salvação, por exemplo, era irrelevante para os gnósticos, mas crucial para os escritores do AT e do NT, os quais também viam a salvação com o algo presente, e não só uma experiência futura.

Entretanto, traços da crença “gnóstica” podem ser encontrados no NT. Por exemplo, algumas pessoas de Corinto alegavam ter “conhecimento” especial e viver numa existência espiritual elevada. A carta para Colossos e as cartas de Apocalipse 1-3 também confirmam a presença de ideias “gnósticas” nas igrejas do século I. Tais ideias são condenadas pelos escritores do NT. Assim como o primeiro capítulo da primeira epístola de João (1 João 1), em que a insistência de João em falar que viu Jesus e tocou nele deixa clara sua intenção de mostrar que Jesus era um verdadeiro homem e não um ser místico.

Referências Bibliográficas

Dicionário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Editora Vida Nova, 2000

Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Editora Vida Nova, 2008

2 comentários em “O Gnosticismo no Novo Testamento

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