Entrei para a turma do “Não Julgueis”

Sim, isto mesmo, a partir de agora entrei para a turminha do “não julgueis” e também para a tropa do “só Deus pode me julgar”. Mas antes de efetivamente participar do movimento preciso sanar algumas algumas dúvidas. Depois disto vou iniciar meus trabalhos de puro amor, amor, sem julgar ninguém.

Então vamos às minhas dúvidas, quem souber a reposta por favor acrescente aos comentários.

  1. Como dizer ao pecador que ele precisa de salvação? Afinal isto é julgar que hoje ele está em pecado, portanto sentenciado ao inferno. Pois só precisa de salvação quem está a caminho do inferno.
  2. Como dizer a alguém que é preciso buscar a Deus e viver em santidade? Afinal de contas ao dizer isto eu estou julgando que tal pessoa não vive em santidade e nem está buscando a Deus.
  3. Como aconselhar as pessoas sem julgar o comportamento delas, e então dizer qual caminho devem seguir? Afinal isto é julgar o comportamento. No aconselhamento as pessoas falam sobre suas vidas, depois se julga o comportamento e então aconselha sobre qual caminho seguir.
  4. Como aconselhar os adolescentes a serem obedientes, não rebeldes, responsáveis e comprometidos com a igreja? Como dizer tudo isto não é julgá-los? Afinal dizer para alguém não ser rebelde é dizer que esta pessoa está sendo rebelde, portanto jugando. Quando digo para alguém ser obediente, está implícito que tal pessoa apresenta alguma desobediência ou não faz sentido falar isto; neste caso não estou julgando como desobediente? Como dizer que os adolescentes e jovens precisam ser comprometidos com a igreja sem ao mesmo tempo julgar que eles estão descompromissados?
  5. Como dizer aos jovens que é preciso buscar sucesso nesta vida, sem perder a fé em Cristo Jesus? Afinal de contas ao dizer isto, estou julgando que eles estão perdendo a fé em Cristo.
  6. Como dizer a igreja que é preciso buscar avivamento, que a igreja não pode ser fria? Vamos pensar juntos. Quando eu digo que a igreja está precisando de avivamento eu estou julgando a igreja e acusando de não ser avivada.

Enfim, como não julgar? Tenho outras dúvidas sobre o não julgueis, mas estas são as de “emergência”.

Usar o “não julgueis” como uma espécie de blindagem é um erro enorme, afinal não se pode reduzir um debate a uma única frase. Certamente após diversos argumentos sintetizamos o pensamento, no entanto, tal síntese é o final do debate e não o início. Realmente seria muito bom se pudéssemos reduzir todos os nossos problemas à frases de efeito, mas a vida adulta não é assim.

O texto de Mateus 1:7 (“Não julguem, para que vocês não sejam julgados“) se tornou uma espécie de “lacração gospel”, um tipo de “carta coringa” retirada da manga para responder a todo e qualquer tipo de conselho, ensino, etc. Mas será mesmo que tudo pode reduzido ao “não julgueis”, “só Deus pode me julgar” e por ai vai?

Muito já foi escrito sobre isto e não quero repetir tudo que já foi dito e escrito sobre este assunto. Em geral os debates mais superficiais se tornam um duelo de versículos isolados, uns dizendo “não julgueis” e outros “julguem”. Mas isto é infantil de ambas as partes e na prática não leva a lugar algum. Sinceramente já estou farto desta guerra de egos.

Vamos lembrar que a bíblia contem versículos, mas ela não é um livro de frases isoladas. Tudo tem seu texto e contexto. Em linhas gerais é preciso sim, julgar o tempo todo. Julgar o pecado, julgar os comportamentos, julgas as motivações e tudo mais. Este julgamento é para decidir entre o certo e errado e, é claro, buscar o correto diante de Deus. Os textos em que somos repreendidos para não julgar, trata de como usamos o julgamento para humilhar e rebaixar nossos irmãos em Cristo. Ou seja quando usamos o nosso comportamento como referência, e então entendemos que quem não está “no meu nível” não é digno. Um bom exemplo é na epístola de Tiago quando denuncia o modo diferente como os ricos e pobres são tratados na igreja (Tiago cap. 2).

Enfim este foi um breve ensaio sobre o assunto. Meu interesse aqui foi apenas de expor que o universo “não julgueis” é muito mais complexo do que pensam os lacradores gospel. Espero que ninguém se sinta ofendido e que o “não julgueis” deixe de ser utilizado para autodefesa quando alguém for chamado a atenção por alguma falha ou comportamento.

No seminário, com meus alunos, convido a todos a pensar no argumento do “não Julgueis” baseado em um roteiro perguntas retóricas.

  1. Quem já viu o “não Julgueis” sendo utilizado para defender aquele recém convertido, que ainda não parou de falar gírias ou expressões do tipo “Nossa Senhora” e “Virgem Maria”?
  2. Quem já viu o “não Julgueis” sendo utilizado para defender aquela jovem recém convertida e que ainda só tem roupa de “piriguete”?
  3. Quem já viu o “não Julgueis” sendo utilizado para defender aquela jovem que engravidou do namorado?
  4. Quem já viu o “não Julgueis” sendo utilizado para defender aquele irmão(a) que não consegue se livrar do vício do álcool, cigarro, etc?
  5. Quem já viu o “não Julgueis” sendo utilizado para defender a irmã que cedeu ao adultério, mas quer a segunda chance?
  6. Quem de vocês já foi beneficiado pelo “não Julgueis”?

E a principal de toda as perguntas é: Quem já viu o “não Julgueis” sendo lançado para defender erros graves de cantores e pastores famosos?

E pelo menos nas aulas do seminário, desde o dia destas perguntas, até o fim do curso, ninguém mais toca no assunto “não julgueis”. Caso encerrado!

Por: Ricardo Moreira Braz do Nascimento

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