Quem é o autor do livro de Hebreus?

O livro de Hebreus foi escrito para exortar os cristãos que estava correndo o risco de abandonar a sua fé em Cristo (Hebreus 6:4), pelo relato do livro sabemos que eles estavam desanimados (Hebreus 12.12-13), e alguns deles já tinham deixado de assistir aos cultos da igreja (Hebreus 10:25). Estes irmãos provavelmente são judeus que tinham se convertido ao cristianismo e por causa da perseguição, estavam pensando em abandonar a fé e voltar ao judaísmo.

O autor de Hebreus os adverte que se fizessem isto eles se tornariam inimigos de Cristo e, por assim dizer, estarão crucificando outra vez o Filho de Deus (Hebreus 6:6). O autor sabe que os seus leitores ainda não tinham negado Cristo (Hebreus 6:9-12), mas enxerga, melhor do que eles, o grande perigo que correm.

Mas afinal quem foi o autor?

O que sabemos com certeza é que o livro é anônimo, o autor não se identifica. Porem existem várias teorias quanto a autoria, alguns falam que é o apóstolo Paulo, Barnabé, Apolo, Priscila ou mesmo um autor desconhecido e discípulo de Paulo. Também sabemos que o autor e os seus leitores pertencem à segunda geração de cristãos (Hebreus 2:3). Os primeiros líderes já haviam morrido, e o autor pede que obedeçam aos seus líderes atuais (Hebreus 13.17). A data mais provável fica entre 65 e 85 d.C.

Os pais da igreja em geral são nossa grande referência quanto a historicidade dos eventos bíblicos, porem quanto a autoria de Hebreus eles não oferecem um testemunho unânime ou convincente.

Tertuliano (160-220 d.C) afirma que Barnabé foi quem a escreveu. Apesar da pouca evidência para esta conclusão é plausível acreditar na autoria de Barnabé, afinal ele e um contemporâneo do Apóstolo Paulo, com um grande ministério e, recebeu o nome que significa “filho da consolação/exortação” (υἱός παρακλήσεως – Atos 4:36). Logo ele poderia ser responsável pela “presente palavra de exortação” (Hb 13:22). Sendo levita, certamente se interessava mais sobre os rituais sacrificais; Sendo judeu de Chipre, possivelmente teve profundo contato com os ensinos helenistas e filosóficos do judaísmo Alexandrino, com os quais tanto o escritor de hebreus possui muita familiaridade. Outra questão é que se foi alguém que se converteu imediatamente após Pentecoste (possível referência em Hebreus 2.3-4), foi influenciado pelo ensino de Estêvão, ensino este que é persistente no livro de Hebreus.

Clemente de Alexandria (150-215 d.C) e Orígenes (185-254 d.C) diziam que Paulo foi o autor. Em Alexandria houve uma forte tendência de ligar Paulo ao livro de Hebreus, ainda que bastante indiretamente. Clemente sugeriu que Paulo escreveu Hebreus em hebraico e Lucas traduziu para o grego. Orígenes pensava que os originais fossem do apóstolo Paulo, ainda que não a forma escrita e a linguagem final. A possível autoria Paulina contribuiu muito para receber autoridade apostólica, a falta desta autoridade poderia manter o livro de hebreus fora do cânon sagrado. Consequente, muitas cópias vieram com o título: “A Epístola de Paulo aos Hebreus”.

Porem existe forte evidência contrária a autoria Paulina à epístola aos Hebreus, inclusive apoiada por estudiosos contemporâneos. Exitem grandes diferenças de estilo entre Hebreus e as demais cartas de Paulo, por exemplo Hebreus apresenta Jesus como sumo sacerdote, e sua obra terrena como o cumprimento de um ritual sacrificial do Antigo Testamento; o que encontra poucos paralelos nos demais escritos de Paulo. Ao mesmo tempo, muitos assuntos e argumentos recorrentes nas cartas de Paulo estão ausentes em Hebreus; enquanto questões semelhantes são tratadas de modo muito diferentes.

Quanto às diferenças doutrinarias, o tratamento da fé, a visão escatológica do capítulo 12, o uso aplicado do código mosaico e, o conceito do santuário são os principais elementos. Existe uma forte evidência interna (no texto), pois Paulo sempre destaca sua posição como apóstolo e testemunha ocular de Cristo ressuscitado (Gálatas 1:11-16. 1Coríntios 15:8), no entanto o autor de Hebreus afirma que recebeu a mensagem de outros, “pelos que a ouviram” (Hebreus 2:3). Este último fato, é para alguns estudiosos o argumento definitivo para descartar Paulo como autor de Hebreus. Compare Hebreus 2:3 com Gálatas 1.12 e 2:8-9.

Priscila é um nome proposto para resolver a questão. Ela, juntamente com seu esposo Áquila, instruíram Apolo (Atos 18:26). Mas Priscila não poderia ter escrito Hebreus porque no original grego, em Hebreus 11.32, o escritor usa um particípio com uma terminação masculina quando fala de si mesmo: “Certamente me faltará tempo para referir o que há a respeito de Gideão….”

Já nos tempos da Reforma Protestante, Martinho Lutero (1.483-1.546 d.C) sugeriu Apolo como autor. Esta teoria tem encontrado grande apoio de estudiosos atuais, afinal Apolo foi educado como judeu alexandrino, era eloquente, tinha um grande conhecimento das Escrituras e agiu na mesma esfera missionária de Paulo (Atos 18:24-28), o que justificaria também a autoridade apostólica da epístola.

Muitos comentaristas bíblicos simplesmente reconhecem que seja um autor desconhecido, mas que possuía forte influência do apóstolo Paulo. No comentário de introdução aos Hebreus da Bíblia de Jerusalém diz que Hebreus é um “escrito anônimo, onde respira o espírito de São Paulo”. Os defensores desta autoria argumentam que o livro foi escrito sob as ordens, direção e responsabilidade de Paulo, porém é um redator cujo nome não chegou a nós. Eusébio de Cesareia diz que são: “as sentenças são do apóstolo [Paulo], mas a dicção e composição das palavras são de outro qualquer que quis recordar os ditos do apóstolo e como reduzir a comentário as coisas que tinha ouvido do professor.

Em última análise, o mais saudável é aceitar que não existe evidência definitiva que comprove a autoria da epístola aos Hebreus. Quando Origines no séc. III foi questionado sobre a autoria de Hebreus, disse: “Mas só Deus sabe com certeza quem escreveu a epístola.” Origines conclui apenas que “…quem escreveu a epístola, certamente só Deus sabe”.

Se estudiosos do início da Era Cristã, alguns que inclusive denominamos Pais da Igreja não sabiam quem escreveu Hebreus, é improvável que nós saibamos mais que eles. Logo aceitamos as evidências que comprovam sua  canonicidade e justo lugar no cânon sagrado; Ao mesmo tempo nos conformamos em não saber sua autoria humana.

Por: Ricardo Moreira Braz do Nascimento

Referências

Comentário do Novo Testamento, Exposição de Hebreus. Editora Cultura Cristã.

Comentário Bíblico Vida Nova. Editora Vida Nova

Novo Comentário da Bíblia. Editora Vida Nova

Comentário Bíblico Moody. Editora Mundo Cristão

O Novo Comentário da Bíblia. Editora Vida Nova

Bíblia de Jerusalém. Editora Paulus

História Eclesiástica, Eusébio de Cesareia. Editora CPAD

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