Quem eram os Sacerdotes e Levitas?

No Antigo Testamento

A relação entre os sacerdotes, descendentes de Arão, e os levitas, outros membros da mesma tribo de Levi, é um dos problemas espinhosos da religião veterotestamentária.

No Pentateuco (Gn-Dt), os levitas foram importantes na construção do tabernáculo (Êx 38.21), seu transporte e montagem (Nm 1.47). Eles foram impedidos de servir como sacerdotes, pois isso era reservado apenas para os descendentes de Arão, mas foram dedicados para um ministério auxiliar dos sacerdotes (Nm 3.5).

Representavam ou substituíram os primogênitos de todas as outras tribos a quem Deus tinha dado o direito (Nm 3.40; Êx 13-13). Cada uma das três famílias levitas tinha responsabilidades específicas. Os descendentes de Coate eram encarregados da mobília e dos utensílios do tabernáculo (Nm 3.29); os de Gérson cuidavam do tabernáculo e sua coberta, dos reposteiros e das cortinas (Nm 3-2); e os de Merari carregavam e levantavam a estrutura do tabernáculo (Nm 3.35). Juntos, eram “presentes” de Israel para servir os sacerdotes (Lv 8.1).

O serviço deles começava aos 25 anos de idade, aos 50 eles passavam para uma “semi-aposentadoria” (Nm 8.24). Os levitas não tinham direito exclusivo a nenhuma porção da terra prometida, mas eram sustentados pelos dízimos do povo (Nm 18.23); os sacerdotes recebiam o dízimo do dízimo levítico e partes das ofertas sacrificiais (Nm 18.8).

Quarenta e oito cidades espalhadas pela terra foram separadas para os levitas (Nm 35.1). Em Deuteronômio usa-se “sacerdotes levitas” (18.1); enquanto alguns estudiosos entendem que isso implica inexistência de distinção entre sacerdotes e levitas, é bem possível que signifique “sacerdotes da tribo de Levi” ; a distinção parece mantida nas diferentes porções atribuídas a cada um (Dt 18.3).

Em Josué, os sacerdotes eram mais preeminentes que os levitas e cumpriam a tarefa crucial de carregar a arca da aliança. A distinção entre eles se mantém (Js 21-1). Em Juízes, o levita de Mica era de Judá, o que implica, ou uma localização geográfica, ou que indivíduos de outras tribos podiam tornar-se levitas (Jz 17-18); este pode ter sido o caso de Samuel, que era da tribo de Efiraim (1Sm 11).

Havia frouxidão religiosa considerável na época, com numerosos santuários em que pouco se importava com as leis de Moisés (Jz 18.31). Os livros das Crônicas ampliam a função dos levitas. A íntima colaboração deles com os sacerdotes no cuidado com alguns utensílios santos e com os “pães da proposição” (1C r 9-28) pode indicar que a divisão rígida insinuada anteriormente tinha-se rompido na época dos reis.

As ordens de Davi em 1Cr 23 mostram que ocorreram mudanças substanciais, pois a permanência definitiva da arca em Jerusalém tornou obsoleta a função dos levitas de carregadores, e o rei assumiu a responsabilidade pela religião oficial.

O papel dos levitas depois do exílio tem breve alusão em Isaías, Jeremias e Ezequiel. Este último impõe divisão nítida entre os sacerdotes levitas (filhos de Zadoque) que se mantiveram fiéis a Deus e os levitas que haviam seguido ídolos (Ezequiel 44.10). Ezequiel parece dar a entender uma volta à distinção original encontrada em Números. Muitos sacerdotes, mas relativamente poucos levitas, haviam assumido posição sacerdotal. Os levitas empenharam-se completamente na restauração do templo (Ed 3.8; 6.16), no conserto do muro da cidade (Ne 3-17) e na instrução do povo (Ne 8.7).

Enquanto Neemias esteve ausente de Jerusalém, Tobias, o amonita, assumiu o controle do depósito das ofertas levíticas, e os levitas tiveram de fugir para os campos a fim de obter comida (Ne 13.4). O sumo sacerdócio permaneceu na família de Eleazar, terceiro filho de Arão, até a época de Eli, descendente de Itamar, quarto filho de Arão. Foi devolvido à família de Eleazar e com ela permaneceu da época de Salomão, em que Zadoque se tornou sumo sacerdote, até c. 174 a.C., quando o poder governante passou a fazer a nomeação.

No século XIX, o desenvolvimento da hipótese documentária da formação do Pentateuco e a ênfase dela numa data pós-exílica para o “ código sacerdotal” levaram a uma drástica reavaliação do desenvolvimento da religião de Israel. Alguns acreditam que Ezequiel reduziu os levitas a escravos do templo, ainda que antes desempenhavam funções sacerdotais (Ez 44.6.). Ezequiel isentou os filhos de Zadoque porque haviam sido fiéis e também porque oficiavam no santuário central em Jerusalém .

Neste caso o sacerdócio foi considerado araônico uma ficção para dar âncora respeitável ao sacerdócio nos dias de Moisés, e desse modo a distinção entre sacerdotes e levitas teria sido introduzida no “código sacerdotal” dos documentos do AT para sustentar a posição dos sacerdotes de Jerusalém acima de todos os outros.

Entretanto, já se viu acima que a distinção entre sacerdotes e levitas é dada em Deuteronômio, que não faz parte do “código sacerdotal”, e as teorias foram fortemente contestadas por esse e outros aspectos.

A intenção clara de Ezequiel era restabelecer um costume antigo, e em todo caso os sacerdotes no código sacerdotal são filhos de Arão, não filhos de Zadoque, com o em Ezequiel. Os levitas não podiam ter-se desenvolvido como classe distinta no curto tempo, principalmente em território estrangeiro. Alguns estudiosos destacam que Israel teria sido singular entre seus vizinhos se não tivesse um sumo sacerdote ou um líder sacerdote e que a falta de ênfase nesse ofício durante a monarquia representa o declínio de uma prática anterior. Ele entende que os levitas podem ter sido promovidos a sacerdotes.

Por isso, embora seja arriscado afirmar que a legislação do Pentateuco era cumprida na totalidade, é ainda mais delicado argumentar que as leis não existiam, uma vez que não eram impostas.

No Novo Testamento

Todas as referências aos sacerdotes no NT pressupõem continuidade histórica e religiosa do AT. As funções deles, portanto, não são explicadas (Lc 1.5; 10.31) e são consideradas legítimas por Jesus (Mt 8.4). A única exceção a esse uso é a referência ao sacerdote pagão de Júpiter em At 14.13.

Entretanto, a maioria das referências aos sacer­dotes e, em especial, aos sumos sacerdotes, refletem situações de confronto. A oposição deles a Jesus aumentou quando sua missão e suas reivindicações se tornaram mais claras, como a contestação da legislação do sábado (Mt 12.1) e as parábolas que censuravam líderes religiosos (Mt 21.45). O conflito intensificou-se depois do cortejo da entrada em Jerusalém e a subsequente purificação do templo (Mt 21) e atingiu o auge na prisão e no julgamento de Jesus (Mt 26-27). O plural “principais sacerdotes” se refere a membros da família do sumo sacerdote, Sumos sacerdotes governantes e ex-sumos sacerdotes.

O conflito continuou na igreja primitiva (At 4.1; 5.17), com a autoridade do sumo sacerdote por trás da perseguição organizada por Paulo antes de sua conversão (At 9 – Is 14).

Na raiz desse embate estava a convicção cristã e a suspeita judaica de que a vida, morte e ressurreição de Jesus representavam o fim das antigas estruturas sacerdotais (Mt 12.6; Mc 10.45; Jo 2.19). O autor de Hebreus dá a esse conceito sua maior expressão no NT. Retrata Jesus como o novo e verdadeiro sumo sacerdote, o único que pode remover pecados, com o sacerdócio que atinge a perfeição não alcançada pelo antigo (Hebreus cap. 7 ) e continua por toda a eternidade (cap. 8). Logo, todos os cristãos, não apenas a ordem sacerdotal, têm acesso pleno e regular a Deus (10.1).

Como o corpo de Cristo e o “novo Israel” , a igreja é ungida para o sacerdócio no mundo (Ap 1.6). Trata-se de um serviço de mediação que declara a vontade de Deus às pessoas, leva as necessidades delas a Deus em oração e o cultua em obediência (1Pe 2.5,9). No fim o povo de Deus participará da vitória de Jesus sobre o mundo e demonstrará sua soberania amorosa no meio dele (Ap 5.10). Todavia, é um sacerdócio coletivo; nenhum líder ou ministro individualmente é chamado sacerdote no NT . Mas os escritos pós-apostólicos logo se moveram nessa direção. Hipólito e Tertuliano (cerca de 200 d.C.) parecem ser pioneiros no uso dos títulos “ sacerdote” e “ sumo sacerdote” em relação a ministérios cristãos.

Fonte: Novo Dicionário da Bíblia, Editora Vida Nova 2000

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